
O mundo é grande, demasiado grande, mesmo no planeta que contém a minha vida. Não consigo evitar a sensação, à partida, de que aquela pode ter sido a última vez. Não é uma sensação má ou angustiante, é uma constatação que se impõe como uma vertigem e que a seguir me acompanha – quase nada – com persistência.
Penso que pode ter sido, embora seja de manhã e tenha avião de regresso a Lisboa às 19:30. Não gosto muito dos dias em que não acordo e adormeço na mesma cidade: como num jardim de laranjeiras em que, de um momento para o outro, alguém mandou abaixo os muros que retêm o perfume, neles não há intimidade. Nem a madrugada a estender-se, com a insolência de um gato que se espreguiça, para todos os lados do mundo, elástica e depois quieta, a impor demora e introspecção aos relógios.
Devia saber partir mas, dúctil e curiosa, só sei alongar-me e, com o hábito, é a retracção, na volta à normalidade, que me custa. Onde me deixei ficar? Onde é que ainda não fui? O mapa que trago, anos de uso e vários rasgões depois, continua a marcar lugares por conhecer. Vivo quinze minutos de pânico enquanto tento, em vão, encontrar forma de encaixar o tempo de vários dias no pouco que me resta. Caio em mim. Decido sair para rever Cassandra, almoçar e passar o resto da tarde na esplanada de uma praça que existe perto de Nairadom, que tem o céu coberto de tílias e que confina com uma rua comercial, estreita e muito movimentada.
As toalhas estão vazias porque as tílias ainda não estão em flor. Vão passar-se pelo menos mais dois meses até que tal aconteça. Agora estão só a rebentar e fazem-me pensar numa musa adormecida de Brancusi que eu pudesse continuar: tudo nelas sereno e perfeitamente ordenado e tão bonito que a seguir, imediatamente a seguir, devem abrir os olhos, encher-se de pássaros e de transparências, de sombras, silêncios e música, de sol, de verde pleno e exuberante, existir no mundo, fora do sono, existir para tudo, para a vida, para a largueza luminosa do Verão, para mim.
E é assim que, debaixo delas, com o jornal para esmiuçar, espero a vinda dos meus anfitriões para uma última parceria na indolência da tarde. Às cinco, quando a esplanada estiver cheia com as pessoas entretanto saídas do trabalho, caminharemos até Gemma e de lá seguirei sozinha até à estação, onde iniciarei viagem inversa àquela que, anos antes, me levou ali contrariada. Hammershøi continuará à beira do rio, em cada árvore, cada vez mais longe e ainda mais minha. Com sorte, quando o avião levantar voo, poderei ainda reconhecê-la na teia de água que, no litoral, reflecte os restos do sol. Daí a umas horas serei outra vez da cidade de Ulisses, que surgirá etérea, impossível, jangada radiosa sobre a noite negra das águas do Tejo, e desejarei chegar.

Comentários
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isabella
São, que coisa mais bonita... Há uma certa melancolia embalada nessa despedida. Ah, um dos meus favoritos.
Gostei muito deste trecho:
"devem abrir os olhos, encher-se de pássaros e de transparências, de sombras, silêncios e música, de sol, de verde pleno e exuberante, existir no mundo, fora do sono, existir para tudo, para a vida, para a largueza luminosa do Verão, para mim."
Chloe
Tu de facto dás-lhe muito bem nas árvores...
tajana
Essa musa do Brancusi dá a sensação de que, se a beijarmos, vai acontecer alguma coisa.
Sim: transformas-te numa estátua de sal...
tajana
Sal => comida! E depois nós é que estamos sempre a falar do mesmo...
Nem me passou pela cabeça :(
Isso é mania da perseguição, pá!
sao
Obrigada :) Foi uma estranheza boa: de repente ver surgir uma musa de Brancusi quando estava a escrever sobre/pensar nas tílias. Não ocorreria se não estivesse embalada e antes nunca tinha pensado nas musas adormecidas de Brancusi desta maneira. Aceitava-as, só, com os olhos fechados e a paz. Agora acho que a urgência também faz sentido quando se olha para elas, que alguma coisa vai ter de acontecer a seguir aos olhos fechados.
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